Funes, el memorioso, lembrava-se de tudo o que aconteceu. De tudo, enfatiza o narrador. Do que aconteceu, enfatizo eu. Pois imagine lembrar-se de tudo o que não aconteceu... Todas as artes da memória, dos gregos a Petrus Ramus, sequer seriam formuladas diante de tal ambição. Se é que podemos chamar isso de ambição, ou se seria melhor, como Borges, designar essa experiência fictícia como uma patologia causada por um acidente qualquer. Tanto faz. De qualquer forma, as conseqüências seriam assombrosas. Se o fato de nos recordarmos do que aconteceu já é motivo de tantas dores, arrependimentos, vergonha, melancolia, ressentimento, ódio, desprezo - e algumas alegrias, devo confessar - imagine, até onde sua imaginação for capaz, o que causaria ao espírito a imagem de todos esses possíveis, todos esses futuros do passado nos assombrando como uma miríade de fantasmas ao pé de nossa cama, disputando ferozmente a vez de puxar nosso cobertor enquanto dormimos. Sim, por mais infantil que pareça essa imagem, há nela uma verdade. Afinal, o que seriam todas essas ações não realizadas em nossa mente senão fantasmas? E que assombração maior elas poderiam nos causar a não ser nos tirar o sono, nos impedir de morrer momentaneamente em nosso leito, obrigando-nos a permanecer com os olhos estatelados, apontados para uma escuridão sem fim da qual ficaríamos a todo momento esperando o que não foi? Vislumbro um suicídio coletivo diante de tal hipótese. A morte representaria não apenas um fim do que foi e do que seria, mas igualmente da presença sufocante e aterrorizadora de tudo aquilo que poderia ter sido. (a continuar...)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
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Um comentário:
A memória não distingue, nem seleciona,só desvela ou desenha meu vislumbre de amor.
Lembrar-me: vestígio imanente do experimentar...
Memória...perversa que engana, ou a tola que supõe?
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