“É que o Prefácio é a última coisa que se faz, ou que se escreve, e quem gasta cinco anos sucessivos a parafusar, a escrever, a solicitar, a esmiuçar e a desenterrar a vida alheia para compor uma história ou muitas histórias, acaba exausto de ânimo e de forças como eu, de tal sorte, que daria a minha Obra a todos os diabos só para não fazer um Prefácio, e ainda assim o Prefácio me persegue como um duende.”
“Sem embargo, não está o negócio em minhas mãos, porque há certas leis de etiqueta (e o Prefácio é uma etiqueta), a que é mister obedecer de grado ou por força: quem visse a obra, e depois do título a Introdução, e não visse o Prefácio, diria logo – esta obra está incompleta e não vale dois cominhos -, os subscritores a engeitariam, e os compradores a repudiariam com mais forte razão, porque a Obra não tinha Prefácio. Deus eterno!! Por que transes não tenho passado para fazer um Prefácio, e todavia não o comecei sequer! Quem me faz um Prefácio, quem me empresta um Prefácio, ainda que o devolva depois com uma Introdução de quebra! Se em lugar de Prefácio eu fizesse um Prólogo, ou um Preâmbulo, ou mesmo uma Prefação!"
“Sem embargo, não está o negócio em minhas mãos, porque há certas leis de etiqueta (e o Prefácio é uma etiqueta), a que é mister obedecer de grado ou por força: quem visse a obra, e depois do título a Introdução, e não visse o Prefácio, diria logo – esta obra está incompleta e não vale dois cominhos -, os subscritores a engeitariam, e os compradores a repudiariam com mais forte razão, porque a Obra não tinha Prefácio. Deus eterno!! Por que transes não tenho passado para fazer um Prefácio, e todavia não o comecei sequer! Quem me faz um Prefácio, quem me empresta um Prefácio, ainda que o devolva depois com uma Introdução de quebra! Se em lugar de Prefácio eu fizesse um Prólogo, ou um Preâmbulo, ou mesmo uma Prefação!"
“Debulhado em gotas de suor frio bati na testa de cansado, e logo me veio a idéia de copiar o meu Prospécto, e dá-lo de novo como Prefácio ou parte do Prólogo.”
Quem escreveu essas frases tão agudas? Baudelaire, Nietzsche, Breton, Leminski? Bem que poderia ser algum destes. Mas não, o autor dessas frases em nada se assemelha a essa lista de lunáticos geniais. Em primeiro lugar, era um general. O que já causa estranhamento. Além do mais, as obras que esse sujeito produziu foram condenadas, com alguma razão, ao esquecimento. Mas chega de suspense. O curioso autor dessas frases chamava-se Gen. José Ignácio de Abreu e Lima. Conhece? Não está perdendo muita coisa, devo admitir. Não é um autor que eu indicaria a amigos, a não ser que ele fosse um desses perturbados que gostam de ler historiografia do século XIX. Mas é justamente isso o que torna essas frases ainda mais deliciosas, elas aparecerem qual uma flor delicada em terreno tão árido. Não me estenderei. Só vim aqui resgatar essa preciosidade e compartilhá-la. Afinal, quem já teve a experiência de escrever um prafácio, qualquer que ele seja, certamente vai reconhecer-se nesses devaneios de Abreu e Lima.
Obs: o trecho em questão é (justamente) o prefácio de seu livro Sinopse ou dedução cronológica dos fatos mais notáveis da história do Brasil, publicado em 1845 pela Tipografia de Manuel Figueiroa de Faria.
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