segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Diálogo entre o fado e o samba: ou bricolage de uma noite etílica

Paulinho: Meu mundo é hoje...

Pessoa: Não, hoje nada; hoje não posso.
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Paulinho: não existe amanhã pra mim

Pessoa: Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...

Paulinho: Eu sou assim, assim morrerei um dia.

Pessoa: Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...


Paulinho: Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia.

Pessoa: Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Paulinho: Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão.

Pessoa: Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

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