Um dos fenômenos sociais mais interessantes é o riso. Muito pouco ou quase nada analisado pelas ciências sociais, ele poderia oferecer uma perspectiva privilegiada para uma auto-análise do cientista social. Explico.
Uma das causas primeiras do riso é o estranhamento. Não que o estranhamento esteja vinculado exclusivamente ao riso. A etnografia, ou ao menos a boa escrita etnográfica, é aquela capaz de tornar estranho aquilo que nos aparece como óbvio, como natural – e se o faz, normalmente, sem provocar o riso, isso se deve à etiqueta e à responsabilidade política que envolve tal tipo de escrita (e quem teve contato com antropólogos sabe o quanto o riso está na base de incríveis trabalhos). Contudo, para confundir responsabilidade política com o politicamente correto é um pulo. Qual a diferença entre os dois? Resumindo, diria que enquanto o politicamente correto anseia erigir-se como universal, uma espécie de Deus spinoziano que está em todo e em nenhum lugar, a responsabilidade política reconhece seu lugar como condição e limite de fala. Um bom exemplo disso é a comédia “Borat”. Seguindo uma estratégia retórica básica (o humor está no básico) de assumir a posição do outro, o protagonista explora e explode uma série de sensos comuns, inclusive aqueles que nos parecem mais sagrados e intocáveis – como os escatológicos (entenda-se, falo de merda mesmo, e não da salvação final). Com isso, ele não está falando dos distantes habitantes do Cazaquistão. Está falando dos seus e para os seus – que em parte somos nós. E é isso que causa a reação de repulsa. Ao passar o limite do que o cômico deveria ir para não ofender (um bom exemplo disso é a cena com o professor americano de piadas) ele está atingindo seu alcance sociológico. Quando digo ofender, certamente não estou me referindo aos habitantes do Cazaquistão, mas ao público. É este público que se sentiria ofendido caso um cazaquistanês defecasse em seu banheiro e viesse à sala de jantar com um saco de merda na mão perguntando o que deveria fazer com aquilo. O que significaria rir disso? Só há duas opções: ou estamos simplesmente denegrindo a cultura do outro (e, portanto, anulando o estranhamento), ou, ao contrário, estamos rindo da própria estranheza e reconhecendo o arbitrário que há na cultura de todos. Uma mesma arma pode servir para atcar e se defender. Não me parece, nesse sentido, que o riso que Borat causa seja ofensivo ao outro (até pode ser, mas não é a ele que se dirige, assim como Montaigne não se dirigia aos Tupinambás). Mas sua pretensa ofensividade ao público é significativa. O que esse público responde? Pergunta vã. Mas talvez um cientista social dissesse: “Não deveríamos rir dos outros, mas entender que são outros e que esse riso diz respeito a nossos preconceitos”. Sim. Mas de onde falaríamos senão a partir dos nossos preconceitos? Será que a ambição do cientista social (claro que falo aqui de uma posição de cientista social, e não de um universal) está em abolir a si mesmo, inclusive quando fala de si? Será que o riso, justamente como lembrança e aviso dessa impossibilidade, não tem sua legitimidade de ser, sem ser relegado ao politicamente incorreto? Não creio que rir é necessariamente ofender o outro, mas talvez acusar o riso seja o sinal de uma falta de modéstia. Como disse, acho que entre o politicamente correto e a responsabilidade política está o reconhecimento do limite da fala. É ela que nos permite rir e, ao mesmo tempo, respeitar de forma menos pretensiosa a diferença. Quem não foi a uma cultura diferente e não “pagou mico”, fazendo o outro rir, daria um péssimo etnógrafo. Em compensação, não me lembro de uma passagem da Bíblia onde Deus ri de sua criação.